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Líderes da Ambev compartilham os maiores erros de suas carreiras

Quem nunca cometeu um erro no trabalho? Na Ambev, os líderes contaram histórias de erros épicos - e grandes lições que aprenderam


Nada como a passagem do tempo para transformar um desastre em uma anedota para compartilhar com os amigos. Ou com centenas de funcionários da sua empresa.

Quatro líderes da Ambev foram convidados para um bate-papo diferente em um evento interno e online da cervejaria, o On My Journey. A proposta era compartilhar grandes erros que já cometeram no trabalho.

Além do exercício de vulnerabilidade, a ideia era reforçar a cultura de tolerância ao erro. Chamada de “F*ckup Session”, e mais delicadamente traduzida como “A verdade nua e crua”, a sessão permitiu aos representantes da alta liderança revelar uma realidade da vida profissional: quanto mais tempo de carreira, mais oportunidades para cometer deslizes memoráveis.

E também mais chances de tirar aprendizados dos momentos difíceis. Do frio na barriga da descoberta de um problema à resposta dos chefes, confira as histórias de cada participante:

As 160 mil garrafas

Nada com o lançamento de um novo produto… para tudo dar errado. Joilson Conceição, diretor da Cervejaria do Rio de Janeiro, conta que sua carreira de 18 anos na Ambev teve diversos momentos (e erros) emblemáticos, mas nada como no dia em que a empresa ia lançar um novo modelo de garrafa.

Eram três moldes: um do guaraná, um da Pepsi e outro genérico. Tudo corria bem até que Joilson recebeu uma ligação de um operador. As máquinas estavam operando bem, produzindo suas 24 mil garrafas por hora. O que somava até o momento 160 mil garrafas com os moldes das duas marcas de refrigerantes misturadas. “Aparecia metade uma bolinha e metade uma florzinha”, conta ele.

Estava instalada a crise. Mas o primeiro passo seria contar para seu gerente. E, para sua surpresa, ele foi compreensivo. “Eu tinha a oportunidade de ficar calado, mas resolvi assumir o erro. E falando a verdade, saiu uma bela decisão de unificar os moldes, o que tornou o processo mais barato”.

A conta que não fechou

Nem toda grande economia é motivo para se comemorar. Foi um dos aprendizados de Daniela Rodrigues, Controller, com um erro que cometeu há quase 10 anos.

Ela tinha a missão de fazer uma força tarefa para encontrar oportunidades de caixa na área tributária. Tudo parecia bem, eles conseguiram acelerar e colocar em prática um plano para alcançar a meta colocada pelo gestor.

Na hora de validar o cálculo com a contabilidade, o balde de água fria: apareceu um ganho muito maior do que era esperado. E ela soube na hora que isso não era bom e eles deixaram de pagar alguma coisa.

“Existem erros e erros. Mas aprendi com meu gestor, o Silvio Moraes que ‘só não existe remédio para a morte; para o resto a gente dá um jeito’”, conta.

As correções foram feitas, a meta foi entregue no ano seguinte e a lição ficou pra sempre. “Aprendi que coisas grandes e complexam precisam de tempo. Temos a pressão para resultados, mas algumas coisas precisam de tempo de maturação”.

Na reunião com Carlos Brito

Rodrigo Figueiredo, VP de Sustentabilidade, não consegue lembrar exatamente o ano, mas consegue enumerar com exatidão a sequência de erros que cometeu após ser chamado para uma reunião por seu chefe, Carlos Brito, o atual presidente-executivo da AB Inbev.

Ele estava na sua aula de MBA quando recebeu a ligação pedindo sua presença em uma reunião sobre fretes e remuneração de revenda. Ele não estava preparado.

Eis sua sequência de erros:

  1. Ele tentou fazer duas coisas ao mesmo tempo, a aula e o preparativo da reunião. Acabou fazendo os dois pela metade;
  2. Chegou na reunião, ainda despreparado, e não avisou para o seu chefe que não estava pronto;
  3. Ele chegou em cima da hora e não sobrou tempo para alinhar como seria a jogada para a negociação.

O resultado, ele conta, foi uma experiência horrível. “Eu saí com o rabo entre as pernas, mas o Brito me chamou e me surpreendeu”, diz. “Ele disse que não sabia que eu estava em aula e que deveria ter avisado. Isso me abriu uma luz para muitos aprendizados”.

Segundo ele, a maior lição é: para evitar problemas maiores, ache o erro quando está pequeno e não deixe a coisa crescer. A comunicação honesta é sempre o melhor caminho. “Tive receio da reação dele, um erro pequeno e que levou a diversos erros na sequência”.

Não é não

Quem não se lembra da campanha publicitária da Skol em 2015 que levava a frase “Esqueci o ‘não’ em casa”? A Carla Crippa, VP de Relações Corporativas, nunca mais vai esquecer o momento que a campanha passou por sua mesa e foi aprovada.

Os cartazes com a frase se tornaram uma grande polêmica no Carnaval, pois, no contexto da festa, parecia uma apologia à violência sexual. E as imagens de duas mulheres mostrando o dedo do meio na frente do cartaz ficaram famosas na internet e na mídia. Nas fotos, elas completaram a frase com um “e trouxe o nunca”.

A VP conta que foi um grande aprendizado sobre interpretação e comunicação. Até hoje, ela sempre pensa não apenas na intenção da empresa, mas no contexto de todos que verão aquela mensagem. Mais do que isso, ela vê que a crise de reputação foi uma oportunidade para que a marca mudasse seu posicionamento sobre um tema importante.

A solução da empresa de uma nova propaganda que reforçava a importância do consentimento e respeito deu origem a um pensamento novo sobre a forma como faziam a publicidade das cervejas.

“Esse exemplo é apresentado em cursos sobre a evolução da propaganda e virou um capítulo dentro da história da companhia”, fala ela. “O curioso é que hoje cuido de reputação e da pauta de liderança feminina, nunca imaginava trabalhar com isso”.

E quando o gestor não é compreensivo?

Os executivos defenderam que a posição do líder diante do erro nunca deve ser agressiva. E também não é certo se ausentar de responsabilidade ou do processo de resolução.

Para Carla Crippa, a pessoa reconhecer o erro, sem tentar diminuir o impacto ou justificar, é o primeiro passo para ter uma comunicação mais positiva. O gestor não deveria punir essa atitude de humildade. E Joilson Conceição criticou os gestores que mandam “dar seus pulos” para resolver.

“Já tive líder que não queria nem escutar. Essa é a pior coisa, mandar a pessoa se virar. A chance de errar de novo é enorme. Eu posso dar os meus pulos errados e criar mais um problema”, fala ele.

Caso a conversa se torne agressiva, Rodrigo Figueiredo conta que sua estratégia é saber escutar e recuar. “Se a mão fica pesada, é melhor não entrar no embate. Sair do racional para o emocional sempre pode piorar a conversa. Não quer dizer que eu não volte e argumente depois, mas minha recomendação é escutar, tentar entender e deixar a poeira passar”, diz ele.

E a Daniela Rodrigues completa: “O erro dificilmente vem de uma falha individual. Pode ser sistêmico, do processo, da falta de recursos… O erro é responsabilidade de todos, e em especial do gestor”.

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