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(Germano Lüders/Exame)

A busca da Ambev por um novo sonho grande passa por uma transformação na cultura da empresa conhecida pelo forte foco em metas e meritocracia.

Um sinal disso foi em setembro quando lideranças da empresa compartilharam durante evento virtual os maiores erros de suas carreiras. A “permissão” para errar é um dos sinais da nova direção que a companhia está buscando, segundo Mariana Holanda, a primeira diretora de Saúde Mental da Ambev, cargo criado em junho desse ano.

“A gente precisa trazer um olhar para o ser humano na sua totalidade. Na companhia, já vínhamos antecipando essa conversa ao trazer atenção para características como vulnerabilidade, empatia, escuta propensa ao outro”, fala a diretora.

A cervejaria percebeu que a inovação passaria pela área de gestão de pessoas, trazendo formas diversas de pensar e oferecendo um espaço seguro para os funcionários testarem ideias novas. Afinal, após uma década de pesquisas, o Google concluiu que o ingrediente secreto das equipes de alta performance não é a pressão por resultados, mas a segurança psicológica.

A aceleração de demandas e o ambiente de alta pressão são alguns dos fatores que tornaram a saúde mental uma das principais preocupações da Organização Mundial da Saúde bem antes da pandemia. Com a crise da covid-19, o problema cresceu: uma pesquisa da Workana mostra que 43,7% dos trabalhadores sentiram algum sintoma de prejuízo mental durante a pandemia.

Antes da pandemia, dados da Organização Mundial da Saúde já apontavam o Brasil como o que tem o maior número de pessoas ansiosas do mundo.

Nos próximos dias 8, 9 e 10 de dezembro, ocorre o Summit de Saúde Mental nas organizações, um evento organizado pela Exame junto com a Cia de Talentos, o Hospital Albert Einstein e a consultoria Get Ahead.

Com presença de especialistas nacionais e internacionais sobre o tema, as palestras online e gratuitas vão falar sobre como tratar a saúde mental como um problema urgente e sua solução como parte da estratégia das empresas.

Na entrevista, a nova diretora da Ambev conta que o caminho é longo e que, mesmo sendo pioneira na área, a cervejaria está sujeita a erros.

“É difícil. Não é fácil, não. Sabemos que somos a empresa que está inovando nesse sentido, tendo essa diretoria. O que não quer dizer que temos todas as respostas, muito menos que não vamos errar”, fala.

Confira a entrevista com Mariana Holanda, diretora de Saúde Mental da Ambev:

O que é o seu cargo e como sua criação impacta na cultura da empresa?

É importante dar um passo atrás: acho que faz parte do processo evolutivo da companhia chegar nesse momento. É uma tendência começar a olhar para o tema. Quando se fala de saúde mental, e esse é o ponto que sempre trago para dentro da Ambev, não se fala dos extremos apenas, como a depressão e o Burnout. A gente precisa trazer um olhar para o ser humano na sua totalidade. Na companhia, já vínhamos antecipando essa conversa ao trazer atenção para características como vulnerabilidade, empatia, escuta propensa ao outro.

O que estamos vivendo com a pandemia nos mostrou que esse era o momento de continuar o movimento de olhar as pessoas em sua totalidade. Demos esse passo de criar essa caixa, a minha função, que não olha apenas para diversidade e inclusão, mas também para saúde mental. Discutíamos isso antes e a decisão sobre a área foi acelerada. Eu sou psicóloga, o que ajuda em alguns debates e discussões internas. Quando pensamos em diversidade e na inclusão de outras perspectivas, temos a ideia de que a base para tratar os temas é a mesma: a pessoa precisa ser acolhida.

E quais suas funções? Existe um objetivo final?

Em termos de saúde mental, a diretoria busca dois tipos de vieses para abordar o tema. Primeiro, o acolhimento para apagar o incêndio que todo mundo está vivendo, todas as empresas estão lidando com a instabilidade emocional no mundo corporativo. Assim, é importante que se crie ferramentas para dar suporte, acima de qualquer coisa.

Aí entra dar conhecimento e promover o aprendizado sobre o tema. As pessoas também precisam de repertório com relação a saúde mental. É uma batalha acabar com o estigma e precisamos ultrapassar isso. Dar repertório para que entendam o que é passar por situações de ansiedade, depressão ou Burnout. E que lidar com isso é tão importante para a saúde quanto cuidar de um resfriado ou uma perna quebrada.

A outra vertente, para mim é onde está a maior força, é ressignificar o autoconhecimento em termos de alta performance. É extremamente necessário que todos tenham acesso a suas próprias consciências. Antes não se falava em autoconhecimento, agora as soft skills começaram a bombar. Mas como eu ensino uma pessoa a ser empática? Agora, é muito relevante entrar em contato com sua vulnerabilidade e exercitar seu autoconhecimento.

Como acontece essa mudança?

A gente achava que resiliência era o poder se esforçar, de dar aquele algo a mais. Quanto mais resiliente, mais reconhecido. Quanto mais esforço, mais reconhecido. E isso vai contra nossa natureza quando a gente pensa em aspectos biológicos. Quando falamos de resiliência, não é apenas sobre o esforço, mas do tempo de recuperação para o seu cérebro. O cérebro é nosso principal músculo e não nos habituamos a olhar para ele desse jeito.

Nesse mundo, super volátil e cercado de incertezas, a pessoa precisa estar minimamente segura. Quando a situação aperta e a pessoa não está bem, ela não entrega, ela trava. Além disso, a empresa hoje entra em outra fase. Hoje em dia, está sendo cobrado das empresas uma participação social. E entrar no tema de saúde mental também é entrar dentro do tema social. Temos que entender como podemos colaborar para termos pessoas mais saudáveis.

Como começar a falar de saúde mental na empresa? Acho que os primeiros passos são essenciais, pois parece um problema tão grande que muita gente só joga a toalha e fala “é assim mesmo, estresse até ficar doente…”

É difícil. Não é fácil, não. Sabemos que somos a empresa que está inovando nesse sentido, tendo essa diretoria. O que não quer dizer que temos todas as respostas, muito menos que não vamos errar.

Faço questão de dizer isso. Tudo o que fazemos, estamos fazendo por acreditar que é o melhor. E podemos errar, voltar atrás e começar de novo. Toda a transformação de cultura, da Ambev e de outras empresas, principalmente para quem se viu obrigado a passar por uma transformação digital, precisa passar pela alta liderança. Enquanto as lideranças não internalizarem a transformação de mentalidade, tudo continua rodando em círculos. Transformar não é comprar laptop ou investir em sistemas.

É isso: evoluir o mindset. O que passa por questões relacionais. Não é fácil falar sobre saúde mental, pois ainda existe preconceito. E toca na vulnerabilidade das pessoas. É difícil admitir quando você não consegue pensar ou deu um branco na reunião e isso está relacionado a não conseguir dormir por causa de um problema. No passado, já foi razão de se vangloriar trabalhar demais. Hoje é diferente. E o debate não é sobre não cobrar ou não pressionar. Toda a sociedade, e o mundo corporativo, é pautada por desempenho. No ritmo de entregar mais e melhor, não existe tempo de recuperação.

Pausar é importante e deve entrar em conta na estratégia. A gente precisa da pausa para pensar e para estar presente. Quem consegue pensar saindo de uma reunião e entrando em outra? Trabalhando 24 horas por dia e sete dias por semana?

O caminho é longo. Não é algo que vai ser uma modificação de uma hora para a hora, só criando uma diretoria como a minha. Internalizar esses novos valores vai levar um tempo. A estratégia da área tem os dois pilares: conhecimento e cultura. Dando esse passo, toda a estratégia precisa fazer sentido com a abordagem. E a cultura precisa evoluir. Sem isso, a gente pode ter 400 apps rodando com 700 atendimentos e continuar doentes. Não é só sobre soluções imediatas.

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